Carne vegetal: bom para mim e para o planeta?

Desmistificando o alimento que promete ser mais saudável e sustentável

Respondendo a uma demanda cada vez mais forte por produtos sem carne, cresce a oferta de carnes vegetais: hambúrgueres veganos que replicam a textura, o sabor e os benefícios nutricionais da carne vermelha, com zero ingredientes de origem animal. Desde o lançamento do Impossible Burger nos Estados Unidos em 2016, muitas outras empresas invadiram os mercados pelo mundo. No Brasil, o conceito chegou na boca do povo, prometendo enganar até os mais carnívoros. A promessa é audaciosa e consegue despertar a curiosidade de qualquer um. Mas como chegamos a esse resultado surpreendente, e o que isso revela sobre o produto? Essa inovação responde mesmo a um consumo mais consciente, como se tem ouvido falar?

A carne vegetal é a perfeita imitação… de uma carne processada

As técnicas e receitas são variadas, mas uma coisa é certa: conseguir replicar o sabor e a textura da carne somente com vegetais exige muita manipulação e processamento dos ingredientes. Animal-free sim. Mas nem por isso natural.

Nos Estados Unidos, o pioneiro Impossible Burger é até hoje considerado a melhor carne plant-based. Isso graças ao seu “ingrediente secreto” patenteado: o heme. Essa molécula somente presente nos animais é responsável por dar aquela suculência tão característica da carne. Com uma proposta de engenharia genética, eles conseguiram isolar e reproduzi-la em laboratório para depois injetá-la em seus hambúrgueres, por isso o resultado é tão bom. Nenhum outro concorrente tem o tal “heme”, mas mesmo assim muitos conseguiram criar hambúrgueres bastante satisfatórios, usando outros artifícios, como a beterraba para dar um “suco” e uma cor próximos ao sangue. Nas diferentes receitas propostas, a fonte de proteína costuma variar entre soja e ervilha, e a gordura tem como fonte principal o coco ou a canola.

Além desses ingredientes principais, existem muitos outros componentes que entram na lista. Por ser um produto altamente processado, a lista dos ingredientes é quase sempre extensa. Isso porque eles foram extraídos, isolados, manipulados e rearranjados para compor o produto final. Por isso mesmo, as carnes vegetais conseguem imitar muito bem um hambúrguer e outros processados, mas ainda ficam longe de uma carne “de verdade”.

“The Impossible Burger contains Water, Soy Protein Concentrate, Coconut Oil, Sunflower Oil, Natural Flavors, 2% or less of: Potato Protein, Methylcellulose, Yeast Extract, Cultured Dextrose, Food Starch Modified, Soy Leghemoglobin, Salt, Soy Protein Isolate, Mixed Tocopherols (Vitamin E), Zinc Gluconate, Thiamine Hydrochloride (Vitamin B1), Sodium Ascorbate (Vitamin C), Niacin, Pyridoxine Hydrochloride (Vitamin B6), Riboflavin (Vitamin B2), Vitamin B12” 

Por trás da aposta no efeito surpresa, marcas no mercado da carne vegana flertam com a ideia de um consumo mais consciente

Futuro, Incrível, Rebel Whopper, Impossible, Beyond: a aposta das marcas no fascínio que causa a inovação é óbvia pela escolha dos nomes. Mas depois da primeira mordida, a surpresa vai se atenuando, e o consumidor logo precisa de benefícios mais profundos. O que vemos é que a maioria das marcas passam a ideia de um consumo “melhor” para o indivíduo ou para o planeta.

A Impossible defende com orgulho que, com o consumo desse tipo de produto, nós como humanos estamos dando um passo para um futuro melhor. Usando a imagem do astronauta, dá a entender que o impossível, coisa de ficção científica, agora é real. “Save the world, eat a burger”, umas das taglines usadas, aponta para o consumo responsável graças à tecnologia que fomos capazes de criar.

Com hambúrgueres disponíveis na Lanchonete da Cidade e em supermercados, a brasileira Futuro comunica sobre a qualidade dos seus ingredientes e seu sabor delicioso, enquanto seu look moderno e urbano passa a sensação de que o hambúrguer plant-based é uma versão atualizada do tradicional de carne.

A Beyond se denomina como o “futuro da proteína” com uma mensagem que mescla consumo consciente e superação pessoal, como se quem se tornasse vegano aceitasse o desafio de se tornar uma pessoa melhor.

A Burger King foi a que fez mais barulho com seu Rebel Whopper “feito 100% de plantas”, disponível somente em São Paulo no momento. Na propaganda, os jovens saboreiam o Whopper pensando que é o mesmo de sempre, e descobrem depois que de fato não é. É um convite a se desafiar, e uma mão estendida para o vegano, que agora também tem uma opção nos seus momentos trash!

Nenhuma marca fala de forma explícita que é saudável, mas muitas flertam com a ideia. Isso se vê na identidade visual, nas mensagens como “100% vegetal” e “feito de plantas”, e com o uso de folhas e selos verdes. Quem não associa vegetal e plantas com saudável? Todas as marcas aproveitam a boa reputação que o veganismo ganhou nos últimos tempos, visto por muitos como sinônimo de um estilo de vida saudável, com documentários no Netflix popularizando essa ideia.

Mas por trás das comunicações das marcas, o quão sustentáveis e saudáveis são realmente os produtos plant-based?

Nem tão bom para mim, nem tão bom para o planeta

Como vimos, a Impossible mostra essa tecnologia como grande solução do futuro. E de fato estamos vendo apenas o começo desse tipo de produto. Nos Estados Unidos, a Just traz ovos mexidos veganos que imitam perfeitamente os originais e está investindo em carne vegetal de qualidade superior. Milhões estão sendo investidos, start-ups estão brotando, grandes companhias estão entrando no jogo. Mas será mesmo que essa é a solução perfeita para nosso planeta? Comer menos carne, já sabemos, é fundamental. Mas esses produtos plant-based que buscam replicar a experiência que só produtos de origem animal entregam, causam muitos dilemas éticos, pois alguns oferecem um incentivo a trocar a comida de verdade por uma comida processada e artificial.

Paola CarosellaRita Lobo, na linha de frente, com declarações fortes nas redes sociais, defendem a ideia de que “se você for vegano, coma vegetais de verdade e não tente reproduzir algo que não existe”. Se formos por essa linha de pensamento, as carnes vegetais são uma forma da indústria de continuar incentivando a compra de produtos industrializados, caros e semiprontos, afastando-os dos alimentos reais. É uma opção vegana, sim, mas também mais uma opção de processado, e menos uma chance de ensinar as pessoas a se emanciparem dos produtos industrializados, de aprender a cozinhar, a se apropriar da sua própria alimentação.

Os claims que destacam a proteína e seus atributos nutritivos resolvem os dilemas de muitos wannabe vegetarianos com medo de não ingerir proteína suficiente. Mas nem sempre informam a origem da proteína, que pode vir, por exemplo, da soja, cuja saudabilidade no Brasil é altamente discutível.

Um futuro mais sustentável passa pela redução do consumo de carne sim, mas envolve questões muito mais amplas, como educar a população a ser mais consciente daquilo que está comendo, para que ela se torne mais apta a se alimentar em casa de forma simples, sem depender de alimentos impossíveis de replicar na cozinha.

Marcas no mercado de carnes vegetais precisam ser responsáveis e transparentes

Essas novas carnes vegetais são produtos que causam fascínio pela capacidade humana de fazer o impossível. Recomendo experimentar, por serem alimentos que oferecem mais uma alternativa de produtos sem carne.

Mas a premissa de que isso é o nosso futuro é mais assustadora que positiva. O consumo desse tipo de alimentos deve acontecer com cautela, como todo produto ultraprocessado. Ao educar as pessoas a comerem menos carne, deve haver um trabalho conjunto de educação de maior consciência dos alimentos e do ato de cozinhar. Por isso, marcas responsáveis deveriam ser muitos transparentes e cautelosas antes de afirmar que tais produtos são saudáveis ou sustentáveis pelo simples fato de serem veganos.

Carmen Beer, Estrategista Sênior

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